quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Medo das regras


Uma pausa
(...)
Um sopro
(...)
O ar já não me pertence
Volta a ser vento
Nunca inerte

E se ele passa
Eu me permito sempre
(...)
Respirar

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Resfriado


A mulher pendurou o passado no quintal
Nem vento nem sol puderam secá-lo
Ela, então, vestiu o passado ainda molhado
E agora vive resfriada

Guardanapos voadores


Estranho receber os momentos do dia em que me sinto partida. São como presentes repetidos, pais adotivos de sorrisos amarelos. Certas imagens me batem como martelo, me pregam no tempo. Eu me fixo em pontos coloridos, que expressam meu pensamento mais remoto, mais prosaico, mais desinteressante. E quando os pontos se unem, em um ato de salvação para mim mesma, descubro a dor de não saber esquecer e resolvo criar desejos profícuos. Não quero agora estar partida - decido. Reúna-me, vento que suspirou há pouco. Obrigada. Nada pode me fazer sangrar de fato. Tenho a verdade no peito, guardada como um guardanapo usado, sujo de batom de mãe. E se a verdade aqui está, a mentira não me machuca. Não posso mais fingir pra mim mesma. Não há nada. Tudo está calmo. O idílio e a tragédia plasmada se foram. Carrego agora a atualidade, que me leva a crer que sou feliz. Realmente sou. Estou. Trago a palavra comigo, em todos os seus sentidos. E as palavras, para mim, são presentes caros. Únicos. Não se repetem.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Um copo de geléia com gelo, por favor


:: Hoje sinto-me doce e aquecida.::

Forminhas de gelo transbordam dias em meu congelador congela dor com gelador. Dias endurecidos e frios, pequenos submarinos em um whisky que eu nem bebo, pequenos mergulhadores em um suco de abacaxi, ácido, assíduo.
Buracos no estômago são espaços para a água ainda quente de um morto ainda quente de um amor gélido gel e dor. Mas os dias são também cáusticos castigos e compensam o freezer deitado ao meu lado. Dormir com um freezer é melhor que dormir só...
Copos de geléia sem geléia não servem para nada. Constatei essa verdade dias atrás e decidi jogar todos os copos de geléia fora, mas a idéia de que eles ainda estarão em algum lugar do universo me deixa irritada e aturdida. Não posso sumir com os copos de geléia e nem passá-los no pão durante o café da manhã. Vidros cortariam minha gengiva, dentes cortariam minha língua, e eu nem sei que parte de mim ainda está inteira, embora me sinta mais plena do que nunca.
Em meio à tempestade de ratos, um gato engole vento e continua com fome. A vida é assim para os gatos tranqüilos e magros. Nem sempre penso no espaço entre os ratos, o mesmo espaço entre as gotas de chuva que nunca é atingido e molhado. Nesse vazio, imagino, deve morar a tristeza que, sendo impermeável, não deixa se vestir de pingos. A tristeza não suporta a água e expulsa todo resquício de lágrimas dos olhos do mundo todo.
Nem sempre penso assim em forminhas de gelo. Na verdade, nos últimos tempos congelados, tenho pensado muito em gelo picado e batido de uma caipirinha que eu nem bebo, mas sinto. Esse momento lúgubre saiu então da garoa de ontem ou de um golpe de ar? Ele passa. É como esvaziar forminhas. Minhas. E encher tudo de novo ao relento. Lento. Para levar ao forno enquanto tomo um café. Sem geléia.

sábado, 19 de julho de 2008

Invasão


O que há por trás da muralha?
A Síria
Infinitos damascos
E uma chorosa montanha cegando pupilas
Que me importa se é feita de concreto?
Vou invadi-la

Equilíbrio


Meias grossas para proteger os pés
Meias palavras para não machucar
Meia luz para o amor ser melhor
Meio certo, meio errado

Metades várias para inteirar a vida

terça-feira, 1 de julho de 2008

Céu


:: Vi o céu ao desenhar olhos verdes. ::

Se o céu insistir em seguir sobre mim, eu direi a ele que meus olhos o refletem quando me deito no chão. Talvez ele não saiba que a amplidão, de fato, só existe dentro dos homens. Talvez eu não saiba que o teto, ainda que imponha limites, só existe para me proteger.